[Curitiba] -

A PARÁBOLA DO SEMEADOR: estudo especial/06

O coração verdadeiro

"Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto: a cem, a sessenta e a trinta por um. Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça" (Mateus 13:8-9). "Mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende; este frutifica e produz a cem, a sessenta e a trinta por um" (Mateus 13:23).

É no coração exemplificado pela terra boa na parábola do semeador que o espírito e o caráter do reino do céu são apanhados e contidos. É aqui que a parábola tem o seu foco. As outras terras — resistentes, inadequadas e improdutivas — nos dizem como fracassar; a terra boa nos diz como ter bom sucesso.

No relato de Lucas, Jesus identifica a semente lançada na boa terra como aquele que recebe a palavra com "reto coração" (8:15). Esta descrição nada tem a ver com a justiça essencial, ou mesmo com a "boa pessoa", mas com aquela atitude que até o maior pecador pode ter quando confrontado com o evangelho. Isto é o coração, ainda que possa ter sido ímpio, que agora é sincero, aberto, despido de toda hipocrisia. Como disse o Senhor, o chamado do seu reino não é para os justos, mas para pecadores (Lucas 5:32). E pecadores podem, se quiserem, responder honestamente.

Esta explicação não contentará os calvinistas, cuja convicção enganada de que os homens são totalmente depravados e incapazes do bem torna sua aceitação desta simples afirmação de Jesus impossível. Premissas falsas levam a conclusões falsas. Até homens e mulheres ímpios podem decidir ter corações verdadeiros. A diferença é que não continuarão sendo ímpios. Como Jesus observou à elite religiosa em Jerusalém, "... publicanos e as meretrizes vos precedem no reino de Deus" (Mateus 21:31). As vidas dos publicanos e das prostitutas eram inegável e abertamente ímpias, entretanto muitos deles tratavam de si mesmos e do evangelho honestamente. Os escribas e fariseus, em sua hipocrisia, não eram honestos nem consigo mesmos nem com a palavra de Deus. O evangelho do reino é um espelho (Tiago 1:25) e uma sonda (Hebreus 4:12) que expõe as atitudes e os motivos de nossos corações. "Quem é de Deus ouve as palavras de Deus", disse Jesus (João 8:47), e, "Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz" (João 18:37).

De que modo o "bom e reto coração" é bom? Em Mateus, o Senhor diz que eles "ouvem a palavra e a compreendem" (Mateus 13:23). Marcos registra que eles "ouvem a palavra e a recebem" (Marcos 4:20). O coração verdadeiro, então, não somente ouve a palavra do reino, mas, diferente do coração duro (solo da beira da estrada), compreende-a e recebe-a. Tudo isto torna claro que compreender Deus não é tanto um exercício intelectual como é moral. Não é um grande intelecto que afasta os homens do reino, mas um coração pequeno e relutante.

Mas há mais. Lucas acrescenta que os corações verdadeiros "... tendo ouvido de bom e reto coração, retêm a palavra; estes frutificam com perseverança" (Lucas 8:15). Há, no coração bom, em contraste com o coração raso (solo pedregoso), uma dimensão de profundidade e tenacidade. Com este modo de pensar, há uma compreensão genuína do valor do reino e uma disposição a sofrer e investir pacientemente, de modo a possuí-lo. Tal coração chega a compreender "... qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade" do amor, e a ser cheio de "...toda a plenitude de Deus" (Efésios 3:18-19).

Finalmente, os corações "honestos e bons", diferentes dos corações apinhados (terreno espinhoso), produzem frutos que dão colheita, isto é, eles cumprem o propósito de Deus em suas vidas. O que esse "fruto" abrange tem sido assunto de muita discussão. Lucas diz que tais corações produzirão "cem vezes" (8:8), ou simplesmente "produzirão fruto" (8:15).

Desde que é o propósito de Deus que seus filhos sejam "conformes à imagem de seu Filho" (Romanos 8:29), o fruto a ser produzido precisa, pelo menos, se referir ao fruto da vida transformada, o fruto do arrependimento (Mateus 3:8), "o fruto do Espírito" (Gálatas 5:22-23), "... o fruto pacífico, ...fruto de justiça" (Hebreus 12:11), "... o fruto de lábios que confessam o seu nome" (Hebreus 13:15). Comentando outro versículo em que Jesus fala da fecundidade de seus discípulos (João 15:2), Hendriksen diz "Estes frutos são bons motivos, desejos, atitudes, disposições, palavras, atos, partindo da fé, em harmonia com a lei de Deus, e feitos para a sua glória" (The Gospel of John, p. 298). Assim, não nos surpreendemos ao ouvir Paulo se referir ao modo como este coração repleto de frutos abunda para com outros "frutificando em toda boa obra" (Colossenses 1:10), em misericórdia e compaixão para com os necessitados (Romanos 15:28) e em comunhão com aqueles que pregam o evangelho (Filipenses 4:17).

por Paul Earnhart

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